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sábado, 17 de dezembro de 2011

Oslain Galvão - O divórcio (CS 1964)

Oslain Galvão trocou a música pela medicina porque só queriam que gravasse boleros


As músicas datadas, aquelas que aproveitam o assunto do momento e viram tema de canções, são como as notícias nos jornais. São páginas viradas no dia seguinte, e raramente são lembradas. Uma das exceções é "Recenseamento", gravada em 27 de setembro de 1940 por Carmen Miranda. O tempo da ação é revelado logo no primeiro verso: "Em 1940 começaram lá no morro o recenseamento". A graça interpretativa da Pequena Notável e a genialidade do autor Assis Valente a transformaram num clássico da MPB. Não é o caso deste "O divórcio", grande sucesso de Oslain Galvão em 1964. Dizem que o cantor trocou a carreira pela Medicina porque o mercado fonográfico só queria boleros em seu repertório.

A julgar pela letra, "O divórcio" poderia figurar na trilha sonora de qualquer obra sobre o comportamento social no início da ditadura militar. A letra, uma versão de Benil Santos para "El divorcio", de Pepe Avila, discute a dissolução do casamento - ou seja, a separação do marido e da mulher, conferindo às partes o direito de novo casamento civil - e retrata como eram os padrões religioso e moral da época: "Frente ao altar, juraste amar-me por toda vida/ O senhor padre representando a lei de Deus/ Sentenciou-nos estarmos juntos até a morte/ E tu te atreves, a vir propor-me, separação".

O pedido de separação pela mulher era um "atrevimento". A letra relata, sob a ótica do marido, que a separação é fruto da sua pobreza e das pessoas que convenceram a ex-esposa em sua tomada de decisão. No seu pranto de dor, consegue decretar como será a vida da ex: "terás com outro, luxo e riqueza, menos amor". Conformado com a separação, ele até se revela razoável: "Tu podes ir onde quiser/ Com quem quiseres, tu podes ir" em verso que parece extraído da Bíblia. Assim, com seu jeito cristão, deixa a ex sem defesa quando conclui: "O divórcio, por ser pecado, eu não lhe dou".

Em 1966, o tema voltava a tona com a irreverência do Eduardo Araújo em "Viva o divórcio". A letra afirma que "Mulher não tira pedaço de ninguém" e que "Quando o divórcio vier, todo mês eu vou trocar de mulher". Esta, por sua vez, até que reagiu: colocou o homem diante da "Prova de fogo" e parou o casamento em busca dos seus objetivos. Mas, e a união matrimonial com gente desquitada? Nem pensar. Que o diga Roberto Carlos. Nem a coroa do rei teve influência para mudar a lei, e foi obrigado a viajar, em 1968, para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, para se casar com Cleonice Rossi, a Nice. Em 1977, exatos 13 anos após a música gravada pelo Oslain Galvão, o divórcio foi regulamentado no Brasil.

Nesse mesmo ano, o sambista Luiz Ayrão veio com "O divórcio", na qual canta: "Treze anos eu te suporto, não aguento mais/ Treze anos me seguram, agora não dá mais/ Se treze é minha sorte, vá - me deixe em paz". O tema ainda rendeu mais pano pra manga, e Odair José gravou em 1981 a conclusão final da história em "Agora sou livre": "Tudo agora ficou bem mais fácil, pois já tem o divórcio/ Pode aceitar os meus abraços sem sentir remorsos/ Se você quiser sentir o meu amor, ninguém vai falar mal, pois eu sou livre, livre para o que der e vier".

O divórcio, como se vê, já foi tema de muitas músicas, feita desde o momento em que se discutia a possibilidade de institucionalizá-lo até o decreto final. Lembrei-me desse disco do Oslain depois de ler os mais recentes dados divulgados pelo IBGE: a taxa geral de divórcios atingiu em 2010 o seu maior patamar desde 1984, quando foi iniciada a série histórica das Estatísticas do Registro Civil. Foram registrados no ano passado 243.224 divórcios, por meio de processos judiciais ou escrituras públicas, e as separações totalizaram 67.623 processos ou escrituras. E pensar que, em 1964, o divórcio era pecado. Confira:

01 - O divórcio (El divorcio)
..... (Pepe Avila - versão: Benil Santos)

02 - Quatro palavras (Cuatro palabras)
..... (Federico Baena - versão: Sebastião F. da Silva)

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